quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Carlos Chagas - Tribuna da Imprensa - link (aqui)
De como se proclamou a República (2)
BRASÍLIA - Vale continuar a crônica de ontem a respeito da proclamação da República. Em cerca de 40 minutos o marechal Deodoro da Fonseca mudara de idéia. Chefiara um movimento militar rebelde para depor o primeiro-ministro, visconde de Ouro Preto, mas terminara depondo o imperador e proclamado a República.
Os revoltosos dividiram-se naquele instante. Alguns levaram Ouro Preto preso, para um quartel nas proximidades. O ministro da Marinha, barão de Ladário, chegara atrasado, não conseguiu entrar no prédio do Ministério da Guerra e, ao tentar, foi baleado por oficiais insurrectos. Morreu o seu ajudante de ordens, no único tiroteio havido em todo o episódio.
O grosso da tropa, com Deodoro à frente, organizou-se para desfilar pela Rua Larga, hoje Rua Marechal Floriano e outras do centro do Rio. Com banda de música e um povo apatetado nas calçadas, sem saber o que era aquilo. A notícia da proclamação da República custou a chegar à Rua do Ouvidor, onde ficavam as redações dos principais jornais. O marechal-ditador logo deixou a Parada da Vitória e voltou para casa e o repouso imprescindível ao seu estado de saúde.
Os republicanos reuniram-se na casa de Benjamin Constant, em Laranjeiras, para preparar os decretos necessários ao novo regime. Eram poucos, além do anfitrião: Rui Barbosa, Quintino Bocaiúva, o major Sólon Ribeiro, Aristides Lobo (autor da frase posterior de que o povo assistiu bestificado à proclamação da República) e mais dois ou três.
E o imperador? O imperador estava em Petrópolis, veraneando. De madrugada recebeu um telegrama de Ouro Preto, avisando da rebeldia militar e pedindo-lhe que viesse à capital. Antes de pegar o trem, que naqueles idos ligava as duas cidades, telegrafou de volta a Ouro Preto, perguntando quem liderava a rebelião. Ao ser informado de que era o marechal Deodoro da Fonseca, comentou com a imperatriz: "Ora, o Manoel é meu amigo...".
Dispunha-se D. Pedro II a continuar a prática de muitos anos: se havia reclamações contra os primeiros-ministros, simplesmente os demitia e substituía por outros, até adversários. Ao descer a serra estava disposto a mandar Ouro Preto passear e até chegou a comentar com auxiliares que nomearia o gaúcho Gaspar de Silveira Martins. Alguém o avisou da impossibilidade, porque Silveira Martins, além de inimigo declarado de Deodoro, estava inatingível. Embarcara dois dias antes, de vapor, do Rio Grande do Sul para a capital federal. Só chegaria dentro de uma semana ou mais.
O imperador dirigiu-se ao paço da Quinta da Boa Vista e ficou aguardando os acontecimentos. Surpreendeu-se quando, às primeiras horas da tarde, viu retirada a guarnição de Cavalaria que fazia a guarda de sua residência, substituída por tropa com ordens para mantê-lo preso.
Como fazia todas as manhãs, a princesa Isabel e o marido, o conde D'Eu, saíram cedo do Palácio Guanabara, onde residiam, para cavalgar num areal chamado Botafogo. Retornaram por volta do meio-dia e souberam que alguma confusão acontecia no centro da cidade e que o pai retornara de Petrópolis. Dirigiram-se imediatamente à Quinta da Boa Vista.
Enquanto isso se espalhava a notícia da proclamação da República. Na Câmara de Vereadores do Rio um vereador republicano e jornalista, José do Patrocínio, convocou os colegas a aderirem ao novo regime. Juntou pequena multidão e conclamou-a a comparecerem à casa de Deodoro, para homenageá-lo. Chegaram ao fim da tarde, quando o marechal acordava.
Assustou-se ao abrir a janela da sala e deparar com o povo entusiasmado, entre discursos de Patrocínio e outros. Agradeceu meio espantado, dando lugar à versão de que a República havia sido proclamada duas vezes: uma no Ministério da Guerra, outra diante de sua casa.
Logo chegaram os republicanos ditos históricos e insistentes, com Benjamin Constant e Rui Barbosa à frente. O baiano havia preparado os primeiros decretos para Deodoro assinar, extinguindo a monarquia e os títulos nobiliárquicos, considerando cidadãos brasileiros quantos se encontrassem no Brasil, mesmo estrangeiros, desde que nada declarassem, revogando a Constituição do império, fechando Câmara e Senado, retirando da Igreja o privilégio de ser a religião do Estado e outros.
Improvisaram-se cadeiras. Diz a lenda que Deodoro reagiu. Se não esquecera, ao menos duvidava da eficiência do gesto anterior, quando o sol nascia. Foi convencido de que a República era irrevogável.
Foi quando o major Sólon Ribeiro, esfogueado, indagou sobre o que fariam com a família real. Ele mesmo sugeriu: "Vamos fuzilá-los a todos para evitar qualquer movimento pela restauração!" (continua amanhã)
Helio Fernandes - Tribuna da Imprensa - link (aqui)
A CPI do grampo e a solidariedade do pânico
Tanta gente envolvida, nada poderá ser apurado
Exatamente há 12 dias escrevi aqui mesmo sobre a chamada CPI do grampo, analisando os fatos e sintetizando tudo no título: "É tão profundo o escândalo, que apurado para valer, O PAÍS NÃO RESISTIRIA". Coloquei a conclusão em letras maiúsculas (que reafirmo agora), porque as coisas ficam cada vez mais estarrecedoras. Não pelas gravações propriamente ditas, mas pelas estarrecedoras descobertas.
E como essas descobertas envolvem personagens ELEVADÍSSIMOS, a CPI vai morrer logo depois do recesso. Perdão: começou a morrer antes do recesso, houve o velório com pouca gente, quase não havia ninguém com tranqüilidade suficiente para ir chorar a própria morte. Por causa disso, estão todos solidários entre si.
E como a moda é citar Nelson Rodrigues, repetindo até frases que ele não disse, citemos uma que ele disse e da qual gostava muito: "O mineiro só é solidário no câncer". Era uma das preocupações do Nelson desde moço. E ele acabou morrendo bem cedo, mesmo passando longe do câncer. Tirando a citação geográfica do "mineiro", a CPI do grampo exibe a solidariedade da frase.
No primeiro artigo, há 12 dias, não escondi: não haverá vazamento, pela razão muito simples de que personagens importantes dos Três Poderes estão seriamente implicados e envolvidos. Marcelo Itagiba, presidente da CPI que começou entusiasmado, não é suicida. E com os primeiros depoimentos (e algumas recusas esclarecedoras), perdeu o ritmo e a velocidade. Ele tem a experiência de delegado licenciado, sabe das coisas.
Seu colega, delegado Protogenes Queiroz, que surgiu como herói, dava a impressão de que não ia parar, passou a vilão. Aí entendeu, conversou com quem devia conversar, foi iluminado. Ameaçado e intimidado, compreendeu, foi fazer um curso superior na Polícia Federal. Com isso, obteve a garantia de que receberá as devidas promoções, sem preterições.
Em troca, Protogenes garantiu: "Não dará a ninguém os três discos rígidos apreendidos na `Operação Satyagraha'". (O título não é de Protogenes, mas ele gostou). Só que antes do acordo, o delegado Protogenes fez questão de mandar um recado ao presidente do Supremo: "Não divulgará coisa alguma, mas o que tem, jogaria Gilmar Mendes mais alto do que os chineses que foram à estratosfera". Gilmar passou recibo, se recusando a ir depor na CPI. Por quê?
Como o festival de (milhares) gravações era para quebrar a privacidade, quebrou mesmo. E além do envolvimento de gente dos Três Poderes em ALTÍSSIMAS PARTICIPAÇÕES EM CORRUPÇÃO, desvendaram romances nem imaginados entre personagens (C-A-S-A-D-O-S) de diversos Poderes.
Falaram no senador Heraclito Fortes, o único citado nominal e indevidamente. Mas 2 ou 3 senadores foram deliberadamente escondidos. Por serem importantes e pertencerem ao setor policial. A gravação do senador Demostenes conversando bobagens com Gilmar Mendes foi vazada, deliberadamente, por dois motivos.
1 - Não comprometia o senador Demostenes, mas deixava claro: as gravações chegaram fundo ao Senado.
2 - O que foi gravado do presidente do Supremo não tinha a menor importância, mas sustentava um objetivo tático e estratégico: mostrar que Gilmar Mendes vinha sendo gravado há muito tempo, e ele sabia disso. E que tinham total conhecimento das ligações dele com Daniel Dantas. Ninguém queria explodir ninguém. Mas todos pretendiam mostrar as armas que possuíam e o que pretendiam fazer com elas.
PS - No primeiro artigo que escrevi, deixei bem claro: a Abin gravou muito, mas não apenas ela. Hoje existem empresas e pessoas independentes, que gravam "para quem pagar mais". E alguns destes têm clientes fixos no setor de telecomunicação.
PS 2 - Confesso: em toda a minha trajetória jornalística, jamais tomei conhecimento de um escândalo com essa profundidade de PRÉ-SAL. Envolvendo os Três Poderes. Atingindo também outros setores, igualmente IMORAIS e AMORAIS, ávidos de faturamento.
![]() | Jacques WagnerEntre todos os postes do PT-PT, o governador da Bahia se sobressai. Ninguém acreditava, com ACM-corleone vivo foi eleito no primeiro turno. |
Jacques Wagner está lutando para ser candidato à sucessão de Lula. Primeiro precisa eleger o prefeito de Salvador no segundo turno. 100 anos depois de Rui Barbosa, a Bahia daria um candidato a presidente da República. Até hoje é lembrada a "Campanha Civilista" de Rui na primeira candidatura em 1910. A Bahia teve um vice, Manoel Vitorino, que assumiu em 1896, quando Prudente de Moraes teve que ser operado.
Manoel Vitorino não foi um vice qualquer. Assumiu, demitiu todo o ministério de Prudente e mudou a sede do governo. Era no Palácio Itamarati, comprou o Palácio das Águias, depois Palácio do Catete.
Que tristeza para Aldo Rebelo do PC do B. Fez um malabarismo grande fingindo que não seria vice de Dona Marta, não queria outra coisa. Como ela já está liquidada, continuará deputado federal. E olhe lá.
Outro ex-stalinista, Alberto Goldman, torce para o Congresso manter a reeeleição. Assim poderá ser governador por um mandato inteiro. Se a reeeleição acabar, fica 9 meses, será o Claudio Lembo também sem votos.
"Especialistas" dizem que em 2009 o PIB dos EUA crescerá apenas 0,1%. Ora, haverá eleição, Obama e McCain prometem mudar tudo, os "especialistas" não acreditam. Não precisava haver eleição, só consultá-los.
Traído pela mulher, um psiquiatra faz o quê? Consulta um psiquiatra? Nestes tempos de crise financeira não seria mais construtivo recorrer a um Banco Central?
Dona Marta Suplicy estava massacrada política e eleitoralmente. Invadindo a vida particular do adversário, não com insinuações, mas com fatos que nada têm a ver com a eleição, desabou totalmente.
Até o presidente Lula criticou a sua falta de ética, jogando lama não no adversário e sim nela mesma. Até o ex-marido ficou contra. A favor, só o segundo marido, que deve ter tido a idéia.
Dona Marta corre o risco de não ser embaixadora. Pelo menos na França, sonho total. Quem sabe não irá para o Haiti?
É possível que haja grande abstenção em SP e no Rio. Como Kassab e Gabeira estão distantes muita gente está tentando não votar. Não façam isso. A vitória é ótima mas a diferença, excelente.
Mino Carta não é tratadista das minhas preferências. Desde que, em 1968, lançou a revista "Veja", fingindo que era oposição.
Durante o AI-5, combinava com os censores, mandava matéria para ser cortada. Acabou demitido, mas fundou a "Revista Capital". Nunca li a não ser como hoje, quando me mandam.
Massacra o presidente do Supremo, Gilmar Mendes. Este só tem uma saída: desmente tudo que está na revista ou renuncia.
Eduardo Paes tem conversado muito com Cabral e Picciani. Ontem disse aos dois: "Posso não ganhar do Gabeira, mas só que menos de segundo eu não tiro". Concordo inteiramente.
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) disse que é inevitável o aumento do preço da energia. Não disse quanto. Mauricio Tomalsquim sabe das coisas.
Eu não quis adivinhar nem ficar em cima do muro. 6 meses antes da eleição, conversei com todos, os que eram ou podiam ser candidatos. Foi muita antecedência, falei até com Eduardo Paes, nem existia. Gabeira era tão forte que ganhou até mesmo com o PSDB, que não ganha nada desde 1998.
Por sorte de Gabeira, o filho bilionário de Marcelo não pôde vir ao Brasil. E o outro, do Tribunal de Contas, é dono de vastas terras, "compradas com o suor do seu rosto".
As bolsas ontem não "balançaram" muito. A Bovespa abriu com alta pequena, o Dow subiu quase nada. Em Wall Street rigorosamente inalterada, no Bovespa, volume pequeno. E o CAPITALISMO ESTATAL, SURPREENDENTE.
Eduardo Paes começou a carreira pelo PV. Parecia correto. Logo mudou para o PTB, se deslumbrou com o alcaide-factóide-debilóide, ainda era PFL. Esse partido da ditadura passou a ser Democrata, ele também.
Não demorou muito, queria ser governador, Cesar escolheu Dona Solange, não suportou, entrou no PSDB. Candidato a governador, não foi para o 2º turno, aderiu a Cabral, vai perder no PMDB. Para onde irá?
Lógico, continuará com Sérgio Cabral enquanto este estiver no Poder. Será secretário, de quê? Foi de esportes por causa do Pan-Americano. Agora escolherá que secretaria?
Terá que disputar com Dona Jandira, Vladimir, alguém do PDT, outro do PTB, mais um do PPS. Depois de "pedir perdão" a Lula e Dona Marisa, pode sonhar mais alto. Que tal ministro?
XXX
Depois de mais de 30 anos escrevendo, ou melhor, fazendo restrições ao presidente do Flamengo, Marcio Braga, ele resolveu me processar. Ha! Ha! Ha! E só tratei de suas falhas como presidente. Nem citei os processos a que respondeu por irregularidades como secretário de Esportes ou até pessoal, por agressões domésticas repetidas.
Mas sua ação era tão tola, que o juiz julgou IMPROCEDENTE e mandou arquivar. O mínimo que Marcio Braga arrolou contra este repórter: "Mordido pela mosca azul, Helio Fernandes quer ser presidente do Flamengo e para isso, o melhor é me atacar". Ha! Ha! Ha! Apenas impedi que Marcio construísse um Shopping Center nos terrenos do Flamengo. Para isso, várias Associações de Moradores me ajudaram. Desesperado, me processou, perdeu.
Não precisava, mas quem me defendeu foi o jovem Iuri Saione, a melhor revelação de criminalista. Neto do grande Clovis Saione, só falei com o Clovis para pedir o telefone do neto.
Celso Ming - Estadão online - link (aqui)
O gato e o guizo
Após cada grande crise, criam-se mecanismos de mais regulação e mais controle. Sobre isso, há mais problemas do que solução.
A questão central nesse capítulo consiste em saber o quê e como controlar. As instituições financeiras mais controladas são os bancos e, no entanto, foram eles que aprontaram a maior parte da lambança. Fingiram que estavam dentro dos conformes, mas, agora se sabe, alavancaram suas operações de crédito e de aplicação para a altura de 40 vezes seu patrimônio líquido, quando o limite técnico é alguma coisa entre 10 e 12 vezes. Capitalizar os bancos, essência dos pacotes da Inglaterra, da área do euro e dos Estados Unidos, significa reforçar-lhes a espinha dorsal para dar-lhes capacidade de suportar a carga dos ativos.
Mas já se viu que não basta enquadrar os bancos comerciais. Bancos de investimento (como o Lehman Brothers e o Bear Stearns) também são capazes de desestabilizar a economia mundial. O mesmo se pode dizer de companhias hipotecárias (como a dupla Fannie Mae e Freddie Mac) e seguradoras (como a AIG). E nada do que se viu ocorreria se não se contasse com a desastrada colaboração das agências de classificação de risco (especialmente a Moody?s, a Standard & Poor?s e a Fitch), que distribuíram certificados AAA para títulos que hoje são considerados "lixo tóxico". Até mesmo fundos de hedge são hoje considerados instrumentos de desestabilização. Aliás, o Long-Term Capital Management (LTCM), em 1998, provocou uma catástrofe que só não derreteu o sistema porque o Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) interveio a tempo e obrigou os principais bancos americanos a absorver os prejuízos. Então, se for mesmo para regular tudo, vai ser preciso montar um gigantesco sistema de fiscalização e supervisão.
Nessa crise, não houve opção e os grandes bancos centrais extrapolaram em muito seu mandato. Forneceram empréstimos de liquidez a bancos de investimento, compraram carteiras de títulos privados e chegaram a injetar na veia de empresas recursos lastreados em commercial papers (promissórias de empresas). Enfim, está em questão a amplitude das funções dos bancos centrais.
E isso não resolve tudo porque já se viu que o mercado financeiro está globalizado e a crise pede instituições reguladoras globais. Dessa vez, ainda foi possível coordenar uma ação entre os principais governos e bancos centrais. Mas já se sabe que não se pode deixar um pedaço importante do sistema global sem regulação e supervisão. E aí fica mais difícil levar a tarefa a cabo porque não há instituições multilaterais em condições de xerifar o mercado financeiro em dimensões globalizadas. E, se alguma passasse a ter essas condições, teria de garantir mandato dos Estados nacionais para isso. Enfim, uma coisa é exigir que o gato circule com guizo. Outra, bem diferente, é amarrá-lo no rabo do bicho.
Fernando Rodrigues - Folha de São Paulo - link (aqui)
NOVA YORK - O momento mais simbólico e patético da atual crise até agora foi a aparição pública ontem, logo cedo, do presidente dos EUA, George W. Bush, e de seu secretário do Tesouro (ministro da Fazenda), Henry Paulson.
Constrangidos, envergonhados e em posição explícita de genuflexão ideológica, os dois admitiram a necessidade de usar dinheiro público para comprar ações de bancos privados. O governo norte-americano torrará US$ 250 bilhões, só para começar, na compra de participação acionária em grandes instituições financeiras do país.
Mas as falas de Bush e Paulson foram além da capitulação. Ambos fizeram questão de reafirmar a crença no capitalismo. Por mais paradoxal que possa soar, essas declarações de fidelidade ao modelo liberal têm grande relevância: impedem a conclusão epidérmica, já presente aqui e ali, sobre uma possível falência inexorável ou reforma completa do sistema monetário e financeiro internacional. Não há indicações de uma coisa nem de outra num horizonte próximo.
Duas frases são úteis para guardar na parede da memória. Bush afirmou não haver a "intenção de tomar o lugar do livre mercado, mas de preservar o livre mercado". Paulson veio depois, compungido e explícito sobre seus atos: "Nós lamentamos por tomar essas medidas. As medidas de hoje não são as que nós gostaríamos de tomar, mas as medidas de hoje são as que nós devemos adotar para restaurar a confiança no nosso sistema financeiro".
Em resumo, os governos dão agora, mas cobrarão de volta mais tarde. Os banqueiros ficarão mais ricos? Possivelmente. Haverá regras novas? Algumas, sempre preservando a liberdade para o sistema bancário descobrir brechas e aumentar seus lucros. E daqui a alguns anos enfrentaremos todos outra crise parecida. Ou pior.
Clóvis Rossi - Folha de São Paulo - link (aqui)
MADRI - Não dá para dizer que me surpreende a campanha que Marta Suplicy lançou contra Gilberto Kassab.
Afinal, quando ela recomendou às vítimas do apagão aéreo no ano passado que relaxassem e gozassem, escrevi aqui mesmo que sua frase era parente muito próxima do "estupra, mas não mata", de Paulo Maluf. Uma e outra revelam uma cultura de profundo desprezo pelas vítimas, quaisquer que sejam os eventos que as causam.
Quem mostra dessa maneira asquerosa a sua pior face reincide fatalmente. Marta reincidiu agora. Ajuda-memória: quando Eduardo Suplicy suspendeu uma de suas campanhas para procurar o eixo, Paulo Maluf insinuou para quem quisesse ouvir que a culpa era do comportamento conjugal de Marta, então casada com Suplicy.
A candidata do PT repete agora o mesmo tipo de insinuação.
Surpreende, sim, que não haja a mesma veemência no repúdio, principalmente no próprio PT e na intelectualidade que se acha progressista e é ligada ao partido.
O presidente da República, por exemplo, preferiu dizer que não vira os ataques e que, portanto, não poderia comentá-los, durante entrevista coletiva em Toledo, Espanha. Duvido que não tivesse sido informado, mas sou forçado a lhe dar o benefício da dúvida.
Aqui, mais um ajuda-memória: na campanha presidencial de 1989, Fernando Collor usou o mesmo asqueroso método de Marta ao puxar o tema de Lurian, filha de seu adversário Lula. Derrubou animicamente Lula para o debate seguinte entre eles, e há gente muito próxima do hoje presidente que atribui a derrota a esse golpe vil.
Em qualquer circunstância, pessoas honestas têm a obrigação de repudiar vilezas. Lula, vítima de uma delas, não tem o direito de escudar-se na lealdade partidária para calar. Lealdade, nesse caso, é só com a ética.





